A LIBERDADE NA DANÇA DO VENTRE

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Queridos leitores!!!!

Ultimamente tenho pensado muito a respeito das diversas questões que comumente ouvimos no meio da Dança do Ventre e quais os questionamentos que elas me sugerem.

A Dança do Ventre é uma modalidade de dança que nos dá muita liberdade de criação, não é? Eu penso que sim. Mas às vezes fico me perguntando: isso é mesmo verdade ou essa suposta verdade esteve, durante muitos anos, embasada no desconhecimento? Até onde vai a liberdade de criação nas danças orientais árabes de uma forma geral? Eu não sei exatamente a resposta, mas penso que podemos pensar em liberdade de algumas formas.Se pensarmos que a bailarina de Dança do Ventre pode e deve buscar sua própria personalidade e assim, interpretar uma música de forma muito pessoal e única, estamos falando de franca e desejável liberdade. Também penso que na hora de criarmos uma coreografia podemos compor movimentos novos baseados no nosso conhecimento de Dança do Ventre e também nas outras modalidades de dança, tais como o jazz, o ballet clássico, o samba, a salsa, dentre muitas, muitas outras possibilidades. E não estou falando propriamente de fusão. Estou apenas falando de um ou outro passo, de um movimento pontual, que qualquer bailarina pode incorporar na sua dança. Natural… a arte é viva e, sendo assim, aceita transformações. E a liberdade de criação é um ótimo caminho para a transformação.

Mas não é isso que me intriga. O que me chama atenção é a quantidade de bailarinas que tão logo começam a aprender Dança do Ventre começam a fazer um número infindável de misturas que vão desde a elaboração da coreografias, do figurino, dos acessórios, de tal forma que a Dança do Ventre fique irreconhecível ou que não se compreenda a mensagem contida naquela apresentação.
Não sou contra o processo criativo, tampouco à inovações. Mas, às vezes, tenho a impressão de que alguns caminhos diversos são buscados porque as pessoas não querem ou não entendem a necessidade de estudar profundamente a Dança do Ventre. Só querem fazer “performances” e comumente possuem um conhecimento muito restrito a respeito das danças árabes como um todo. Dai eu me pergunto: você realmente gosta de Dança do Ventre??? Você gosta de Folclore Árabe? Você gosta de música árabe? Se gosta, por que não dança uma genuína dança oriental árabe? Por que tudo que você escolhe dançar é performático?
Eu tenho uma aluna assim. Ela só estuda performances, mas é disso que ela realmente gosta. Ela mesma já se fez as perguntas acima e ela sabe que a coisa que lhe move é meramente a “inspiração na Dança do Ventre”. Tai, ela faz um trabalho absolutamente consciente. Ela já admitiu que não gosta da Dança do Ventre, gosta apenas de alguns elementos dela.
Eu estou lançando todo este questionamento porque vejo alunas e profissionais de outras danças querendo cada vez mais se aprofundar tecnicamente na modalidade que escolheu pra dançar e quando surge a oportunidade de uma fusão ou de uma performance diferente, ela ocorre de forma pontual e responsável, proveniente de um bom trabalho de pesquisa. E sempre feito por profissionais experientes e grandes conhecedores e estudiosos da dança. O resultado acaba sendo um trabalho verdadeiramente consistente e de muito bom gosto.
Isso sem mencionar aquela bailarina que quer colocar véu em tudo, por exemplo. Não importa o gênero musical. Se ela consegue fazer um belo movimento de véu num determinado trecho de uma música árabe, sempre vem a pergunta: “por que não???” E eu devolvo a pergunta: “por que colocar véu precisamente nesta música ou neste trecho da música?” Por que você quer tanto dançar com véu uma determinada música, mesmo sabendo que ela é uma música folclórica, por exemplo? Não cabe véu! Puxa, mesmo que você goste, não cabe. Simplesmente não cabe. Ousar a este nível só vai demonstrar equívoco e desconhecimento.
É importante deixar claro aqui, que não se trata de julgar o trabalho do outro, mesmo porque, para fazê-lo é importante antes, saber mais a respeito da trajetória da bailarina. Não quero ser leviana. Pretendo apenas lançar perguntas e propor reflexões. Isso porque acredito que seja importante começarmos a perguntar a nós mesmos o que estamos fazendo e o que estamos querendo da Dança do Ventre. E por quais caminhos queremos que o nosso trabalho percorra.Bjs a todos!

Obs.: A foto é de uma coreografia minha feita em parceria com Roberto Dias, professor de tango. Fizemos uma fusão para o Espetáculo Dança do Ventre In Concert apresentado na Sala Martins Pena do Teatro Nacional em Brasília no ano de 2005.