DANÇA DO VENTRE NÃO É COISA PRA CRIANÇA! COMO ASSIM???

Tempo de leitura: 5 minutos

Dança do Ventre não é coisa pra criançaDança do Ventre Não é Coisa pra Criança?

Quem afirma que Dança do Ventre não é coisa pra criança é porque não conhece a dança de verdade ou precisa se livrar de velhos conceitos.

Cerca de 3 semanas atrás eu me surpreendi com uma artigo publicado no site Saúde Plena que mostrou um debate sobre o ensino da Dança do Ventre para crianças.

Vários pontos (e também a repercussão por parte dos leitores) me deixaram bastante surpresa e entristecida.

Entendendo que a questão é muito séria, resolvi escrever alguns posts aqui no Blog, inspirada por todo conteúdo gerado no artigo e por mim observado.

O primeiro aspecto que me chama atenção diz respeito à visão que a Dança do Ventre tem na nossa sociedade.

Que os leigos vejam de forma distorcida a nossa arte, acho em certa medida, compreensivo, já que nós, do meio, sabemos o quanto ela é veiculada de forma equivocada.

Então, não me espanto quando as pessoas que não conhecem a dança de perto, que nunca entraram numa sala de aula, acreditem mesmo que Dança do Ventre não é coisa pra criança.

Mas profissionais da Dança do Ventre, fazerem o mesmo discurso de que a dança é capaz de fomentar a sensualidade, a erotização precoce das crianças e consequentemente contribuir para que as meninas engravidem mais cedo?!?! Sinceramente??? Isso me causa uma boa dose de estranheza e perplexidade.

Eu sou daquelas que estuda muito. Já fiz inúmeros workshops e cursos com os mais renomados mestres nacionais e internacionais e NUNCA vi, em nenhuma das aulas, a proposta de erotização dos passos ou a presença de qualquer conteúdo supostamente didático que tivesse um caráter sexual. E olha que estamos falado de aulas para adultos!

Eu fico aqui pensando… o que imaginam aqueles que acreditam que as crianças não devem aprender Dança do Ventre?? Como será que os profissionais ensinam os “oitos“, por exemplo??

Olha gente, enquanto vcs fazem o oito pra trás, vcs devem entreabrir as pernas levemente, fazer um demi plié, colocar as duas mãos na nuca elevando parte dos cabelos para o alto da cabeça, abaixar o queixo e elevar um olhar penetrante, entreabrindo os lábios. Ainda, mantendo o oito pra trás, desça uma das mãos pelo corpo, passando-a pelos seios e indo até à virilha enquanto deixa a cabeça pender para trás. Um leve suspiro é desejável. Ótimo! Ótimo!  Gemendo. Todo mundo gemendo! Muito bom mesmo! Repita tudo com o oito para frente.

Gente, isso é absurdo!!!! Dá pra rir, não dá? Imaginar que nosso aprendizado passa por coisas assim é muito, muito absurdo mesmo!!! E a meu ver, é a única forma de se pensar que a Dança do Ventre poderia ser inapropriada para criança. E no caso, seria patético para adultos.

Passamos horas, anos, investindo pesado em bons cursos para nos alongar, fortalecer nossa musculatura, aprender técnicas de giro, dissociação de movimentos, postura, técnicas de quadril, diferenciação de eixos, percepção corporal, expressão, molduras de braço, deslocamentos criativos, ritmos árabes, teoria musical, folclore árabe, para o povo achar que damos “suspirinhos sexys” em sala de aula????

E quando falamos de aulas para criança, a coisa fica ainda mais distorcida. Eu sou professora de adultos, mas conheço a metodologia utilizada para as pequenas.

Uma boa e qualificada professora de Dança do Ventre Infantil investe na socialização, na coordenação motora, na compreensão rítmica e nos passos executados de forma lúdica. Trabalha a psicomotricidade da criança respeitando seu estado neuro-evolutivo, dentre outros elementos fundamentais para o seu desenvolvimento na dança e na vida.

Logo, parem com essa coisa de que Dança do Ventre não é coisa pra criança. A Dança do Ventre é coisa pra criança sim!!!

A Dança do Ventre é uma dança sensual? É sim. E devemos nos orgulhar disso.

É bom lembrar que a sensualidade da dança nada tem a ver com a sensualidade estereotipada e comercial do calendários de oficina mecânica. E trata-se de um elemento que é naturalmente desenvolvido por algumas bailarinas adultas e amadurecidas. Não tem nada a ver com a dança infantil, muito menos com a manifestação lúdica da criança.

Nós, profissionais da Dança do Ventre precisamos entender melhor a natureza técnica da nossa dança.

Precisamos desenvolver um olhar mais crítico e objetivo sobre seus benefícios e sobre o seu lugar na sociedade, no meio artístico e no mercado.

A meu ver, não há outro caminho se quisermos uma Dança do Ventre séria e um olhar pra nós mesmas com mais respeito e credibilidade.

Para complementar o assunto, eu gostaria de sugerir para você um Vídeo no qual eu falo sobre o que a Dança do Ventre significa pra mim e como eu vejo todas as distorções existentes no mercado a respeito da nossa arte.

Espero que gostem e que compartilhem com outras pessoas.

Quem sabe assim, não ajudamos a mudar a visão errada que a dança tem por ai?!?!

 

 

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Kisses

  • Silvia Marques

    Amei a sua colocação. Sou pedagoga, pós graduada e defendo a dança do ventre para crianças, sim! O motivo? Os inúmeros benefícios que podemos proporcionar através da dança. Disciplina, socialização, cultura, lazer, desenvolvimento psicomotor, cognitivo e afetivo entre outros.
    Beijos

    • Nilza Leão

      Silvia, muitíssimo obrigada por sua contribuição. Bjs!

  • Anônimo

    Adorei minha amiga, dou aula para crianças, desde 2002, hoje a maioria já são adultas, e são mulheres bem resolvidas e nenhuma delas ficaram grávidas ou denegriram sua imagem,pelo contrario, são mulheres que aprenderam desde sedo a se valorizar. Atualmente tenho ainda menininhas na minha turma, não tantas como gostaria mas consegui vencer algumas resistências. Obrigada adorei o post. beijos.

    • Nilza Leão

      Que legal este depoimento!!! Muito obrigada por sua contribuição. Bjs!

  • Valéria Alves

    Olá Nilza! Finalmente conseguí passar para dar a minha contribuição.

    A dança é tátil, porque se sente o movimento e os benefícios que ele produz.É visual, porque os movimentos vistos são transformados em atos.É auditiva porque se ouve a música e se domina o ritmo.É afetiva, porque a emoção e os sentimentos são demonstrados.É cognitiva porque é preciso raciocinar para adequar o ritmo à coordenação.Finalmente, é motor porque estabelece um esquema corporal.Isso independe da modalidade de dança, creio que não há argumentos melhores para que a dança seja considerada uma atividade indispensável no desenvolvimento da criança, inclusive a Dança Oriental ou do Ventre.
    Segundo Paulo Freire a criança se movimenta porque precisa aprender e aprende porque se movimenta.Sábias palavras!
    Enquanto buscava informações para desenvolver o meu trabalho com a Dança do Ventre infantil, me deparei com um material de um grupo de educadores, defendendo a dança como algo essencial para o desenvolvimento global da criança e no processo educativo.Muitos foram os argumentos, mas um dos exemplos me arrepiou, vejam só:
    Quando trabalhávamos em uma escola particular católica, vivenciamos uma experiência merecedora de ser relatada como ilustração dos efeitos positivos da dança na formação da personalidade.Uma menina de 12 anos ingressou na escola e manifestou vontade de participar das aulas de dança, possuia uma habilidade especial, mas fomos surpreendidos pela recusa da diretoria, que não permitiu que a jovem integrasse o grupo.Fomos informados de que a menina já havia sido expulsa de duas escolas por atitudes imorais nos intervalos das aulas, subia nas classes e tirava peças de roupas, numa exibição do corpo considerada vergonhosa e pecaminosa, além de ter um péssimo aproveitamento escolar e de ter sido reprovada por duas vezes.
    Depois de muita insistência e após termos assumido a responsabilidade sobre os atos da menina, a colocamos na turma e trabalhamos durante dois anos, sem que ela jamais tivesse demonstrado qualquer atitude reprovável.Tornou-se uma excelente aluna, dançava com entusiasmo e expressão, foi aprovada por média e confessou-nos, um dia, que se sentia feliz e realizada depois que começou a dançar.Acreditamos que a liberação de suas emoções e sentimentos de adolescente através da dança tenha suprido a sua necessidade de se expor, devolvendo-lhe a auto-estima e a dignidade.
    Irônico não?
    Fico triste quando constato que apesar de tudo isso, por falta de informação, pela ausência de investimento em projetos e ações que desenvolvam o olhar artístico e sensível dos indivíduos, por ignorância, a dança seja vista de forma vulgar e estereotipada, ainda que apresentada por um ser ingênuo e puro.
    Reflito muito sobre o assunto e acredito, de verdade, que nos falta pureza, deixamos nossa criança interior desaparecer, o Papai Noel se transformou num Lobo Mau, e a Dança, principalmente a do Ventre, se transformou num bicho papão, capaz de devorar o que a criança tem de mais precioso – a inocência.

    • Nilza Leão

      Valéria, como agradecer um comentário tão rico, pertinente e CONTUNDENTE??? Vc mostra o quando a dança é séria e tem firmes propósitos. A questão é quem nem todo profissional na nossa área é verdadeiramente qualificado. Como em todas as profissões temos isso… infelizmente.

      Só faço um adendo no seu comentário. Não foi irônico que a menina mudou seu comportamento após a dança. Na verdade, ela encontrou uma forma adaptativa de se mostrar e de chamar atenção com efetividade. Tirar a roupa chamava atenção, mas ela pagava um preço alto por ser punida e por ser vista como uma destoante. Ela, por algum motivo precisava mostrar que existia e a dança lhe deu outros nortes de fazer isso. Também, com a melhoria da auto-estima, vendo o pp progresso na dança, como desenvolvimento de novas habilidades para se comunicar, o comportamento foi substituído, sublimado ou até mesmo resolvido. E é isso que as pessoas precisam entender em relação às artes, às danças em especial. E a Dança do Ventre não fica fora disso.

      Muito obrigada por sua contribuição aqui e principalmente na nossa amada Dança do Ventre. Bjs, querida. 😉